Resistência antimicrobiana: o antibiótico que o SUS ainda não consegue racionar
Atualizado em 11/06/2026
Em teoria, o Brasil tem diretrizes claras para uso racional de antimicrobianos. Na prática, UTIs de hospitais públicos em capitais do interior ainda prescrevem carbapenêmicos de forma empírica em mais de um terço dos casos analisados por auditorias internas — sem resultado de cultura disponível no prazo clínico.
A resistência antimicrobiana não é abstração de relatório da OMS. É paciente que perde opção terapêutica, internação que se prolonga e custo que o SUS absorve sem linha específica no orçamento. E o paradoxo brasileiro é conhecido: temos protocolos atualizados e infraestrutura de prescrição que não acompanha.
Stewardship no papel e no chão do hospital
Programas de stewardship antimicrobiano — comissões que revisam prescrições, orientam desescalonamento e monitoram resistência local — existem nos manuais do Ministério da Saúde desde meados da década passada. A adesão, porém, varia brutalmente. Hospitais universitários e algumas redes estaduais estruturadas mantêm equipes dedicadas; unidades menores dependem do mesmo infectologista que atende ambulatório, consultoria e surto simultaneamente.
Conversei com três profissionais de infectologia em diferentes regiões para esta reportagem. O relato comum: a revisão de prescrição funciona quando há farmacêutico clínico e sistema eletrônico que permite alerta. Onde a prescrição ainda é em papel ou o prontuário não cruza dados de microbiologia, o stewardship vira reunião mensal sem poder de intervenção.
O gargalo do diagnóstico
Sem antibiograma em 48 horas, o médico escolhe o espectro mais amplo para não errar. Isso é racional do ponto de vista individual e desastroso do ponto de vista coletivo. Laboratórios públicos enfrentam fila de amostras, falta de reagente e turnover de técnicos. A automação chegou a alguns centros de referência, mas não à rede que atende a maior parte das internações.
"Pedir cultura é protocolo. Conseguir resultado antes do paciente sair da UTI é outra história", resume infectologista de hospital regional no Centro-Oeste.
Comunidade e hospital conectados
Grande parte do volume de antibióticos no país é consumida fora do ambiente hospitalar — consultórios, farmácias, automedicação. Campanhas de educação têm efeito limitado quando a prescrição para resfriado viral ainda acontece. A Anvisa restringiu antimicrobianos de venda livre, mas o mercado informal e a pressão do paciente por "algo forte" persistem.
A resistência que nasce na comunidade chega ao hospital. Klebsiella produtora de carbapenemase não respeita porte de instituição. Surto em UTI frequentemente revela cepa já circulante na região, detectada tardiamente por falta de vigilância sentinela compartilhada entre laboratórios.
O que mudaria o cenário
Especialistas ouvidos convergem em três prioridades: financiamento recorrente para microbiologia pública, integração de dados de resistência regional em tempo quase real e consequência administrativa para prescrição fora de protocolo em instituições que já têm comitê instalado. Nenhuma é novidade. O que falta é escala e persistência política.
A Vigília acompanhará a implementação da nova portaria sobre antimicrobianos de amplo espectro prevista para o segundo semestre de 2026. Até lá, o antibiótico continua sendo o remédio que funciona hoje e cobra juros amanhã.